domingo, 30 de agosto de 2020

O QUARTO CÁLICE (Scott Hahn) – apontamento final

 

... e finalmente chegamos ao último post sobre o livro de Scott Hahn.

Na parte final do livro Hahn tece diversos comentários sobre o papel da Páscoa cristã na vida dos fiéis. Hahn nos lembra que a vida neste mundo é milícia.

Enquanto estivermos neste mundo alternaremos momentos de alegrias e tristezas, dores e gozos, mas nada disso terá sentido se não for encarado à luz do sacrifício de Jesus na Cruz. Jesus morreu na Cruz para salvar a todos nós, crentes e não crentes, amigos e inimigos de Deus. Ele sendo Deus sabia que pelos milênios afora muitos não iam aceitar seu sacrifício sangrento de redenção. Como disse papa Francisco Deus é rico em misericórdia (Dives in misericórdia), não quer o mal e a perdição de ninguém, mas sim que todos se salvem. Assim como fez com Judas Iscariotes, até o último instante dá os meios para o maior dos pecadores mudar de rumo e se converter. É dentro dessa lógica que Hahn conclui que a aceitação da dor pelos cristãos é a chave para coparticiparmos de seu sacrifício na Cruz. Nas suas próprias palavras:

 

“O amor de Jesus por nós expressa-se perfeitamente em sua hora, seu cálice, seu sofrimento – no Mistério Pascal. Tendemos a nos esquecer disso. Queremos experimentar o amor como prazer. Gostamos de imaginar o amor dessa maneira. E é mesmo verdade que não há prazer mais elevado que o amor”.

“Entretanto, o amor como ocasião de sensações agradáveis o gozo da presença de alguém – não é idêntico a essas sensações agradáveis. Além disso, o amor pode prosperar na ausência do prazer. Pense numa esposa que cuida de seu marido em estágio avançado de demência. Ela não conhece mais os prazeres da conversação. Ele não compra mais presentes para ela nem lhe envia flores. O corpo dele, antes belo, agora pesa quando ela o levanta de sua cadeira e o guia até a mesa”.

“Ela sofre por amor do outro. Entrega-se altruisticamente, como Cristo se entregou. Ela conhece a difícil alegria que vem do verdadeiro amor”. (...).

“Sempre que as pessoas amam, é assim que o fazem. O amor é a resposta ao enigma do sofrimento. O sofrimento é a resposta ao enigma do amor. Só com Jesus – e, de modo particular, como Mistério Pascal – Deus revelou a resposta aos enigmas perenes de nossa existência”.

“Com sua Paixão e sua Páscoa, Jesus nos guia, ensina e dá o poder de viver a vida do céu, que é o amor. Sua vida impele-nos primeiro a imitá-lo; depois, a buscar a união com ele; e enfim, a permitir que Ele aja em nós. É então que a vontade do Pai se faz. Por meio do Mistério Pascal – a hora, o cálice -, entramos em comunhão com Jesus. Partilhamos de sua vida. Participamos dela”[1].

 

Em resumo: no amor encontraremos a dor; e na dor o verdadeiro sentido do amor. Quem já se sacrificou por outra pessoa sem esperar nenhum tipo de agradecimento ou retribuição sabe bem do que estou falando aqui. Esse é que era o cálice que Jesus pediu para o Pai Celeste que afastasse, mas logo em seguida Ele pediu que se fizesse a vontade Dele e não a sua...

E aqui termino por hoje. Espero que tenham gostado.



[1] HAHN, Scott. O quarto cálice: desvendando o mistério da Última Ceia e da Cruz. São Paulo: Quadrante, 2020, p. 150.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O QUARTO CÁLICE (Scott Hahn) – segundo apontamento

No post da semana passada o leitor amigo pode ter ficado bravo já que não esclareci quase nada do livro de Scott Hahn O quarto cálice, mas como eu havia alertado esta sequência de postagens não tem como finalidade reproduzir na íntegra o pensamento do autor, mas apenas compartilhar algumas impressões.

Hahn ao longo de suas pesquisas foi se aprofundando mais e mais na Tradição dos primeiros séculos do cristianismo, chegando após anos de árduos estudos a conversão ao catolicismo. Ao iniciar seus estudos em uma universidade católica, ele decidiu assistir a uma missa para entender a celebração eucarística. Sua intenção era agir como um pesquisador de campo observando pássaros e animais, mas o que ele encontrou foi muito mais. Deixemos ele concluir com suas próprias palavras suas impressões, marcadas pelo espanto e a surpresa mesmo décadas após o fato narrado:

 

“Estaria ali somente como observador, como um acadêmico que empreendia uma investigação histórica. Decidi comparecer a uma das Missas de dia de semana, sabendo que elas atraíam multidões menores que a Missa Dominical. Com minha Bíblia e um caderno, sentei-me no banco de trás da capela da universidade. Estava bem preparado. Tinha tomado todas as precauções. Não estaria mais seguro nem mesmo se houvesse utilizado uma bolha plástica por observatório”.

“No entanto, logo percebi que não estava preparado de forma alguma. O que experimentava ali era uma imersão nas Escrituras – tanto no Antigo como no Novo Testamento. Ao mesmo tempo, não se parecia em nada com um grupo de estudo bíblico. Não se parecia em nada com uma aula. Não havia nada ali que alguém pudesse encarar como entretenimento. Não havia nada que parecesse calculado ou calibrado para estimular minhas emoções”.

“As palavras e o culto eram dirigidos a Deus. Diziam respeito a Ele. As fórmulas rituais eram profundamente trinitárias, como as bençãos e saudações de São Paulo. Quando as pessoas não estavam lendo diretamente da Bíblia, o sacerdote estava pronunciando orações ricas em citações e alusões bíblicas, extraídas livremente do Genesis ao Apocalipse”.

“Do Apocalipse, sobretudo. Quase tudo o que vi na capela lembrava-me desse último livro do cânone. Havia um altar e um clero investido. Havia castiçais dourados. A congregação entoava a canção dos anjos do céu: ‘Santo, Santo, Santo’. E, a todo momento, fazia-se menção de Jesus como ‘o Cordeiro’”.

“O rito da Missa evocava o céu – como se estivéssemos mesmo lá -, e o acontecimento como um todo apresentava certa qualidade pascal. Não se tratava apenas da menção do ‘Cordeiro’, embora isso realmente só fizesse sentido em face da Páscoa de Jesus. A Missa inteira estava repleta de símbolos pascais. Percebi muitos deles naquele primeiro dia e ainda outros à medida que fui retornando à Missa nos dias seguintes”.

“Não pude deixar de concluir que a renovação da aliança celebrada pelos católicos era consistente e contínua (como cumprimento) em relação à renovação da aliança celebrada pelo Israel antigo. Do mesmo modo, era profundamente bíblica e cristocêntrica”[1].

 

Páginas depois Hahn comentou do começo da caminhada de sua esposa no catolicismo, que foi mais demorado e acidentado:

 

“(...) ela também começou a reparar no quão profundamente bíblicos eram os ritos da Igreja Católica. Se se incluírem os Salmos Responsoriais, fazem-se dezessete leituras extensas das Escrituras ao longo da liturgia. Era mais Bíblia do que ela, filha de pastor, jamais havia lido num culto dominical”[2].

 

Hahn descreveu acontecimentos ocorridos mais de três décadas atrás. Como historiador fui habituado a desconfiar de relatos pessoais distantes no tempo. Digo isso porque, infelizmente, a memória é móvel e ao longo do tempo omitimos e acrescentamos detalhes novos a nossas memórias com o uso da imaginação. Essa é uma operação diversas vezes involuntária, outras nem tanto, que levam a nós historiadores de ofício a sempre desconfiar de nossas fontes documentais.

O testemunho de Scott Hahn dói em pessoas como eu que, devido o isolamento social provocado pelo Coronavírus e o impedimento de frequentar missas e sacramentos. Provoca dentro do meu ser o desejo de voltar a prática religiosa o quanto antes. Me vem a mente as palavras do “Catecismo verdinho”, aquele das perguntas e respostas que a certa altura dizia: “basta uma comunhão eucarística perfeita para merecermos o Céu”. Bom, isso foi lá em 1992. De lá pra cá assisti missas calmamente, outras olhando o relógio. Comunguei atento, distraído e, em algumas ocasiões de forma não muito digna, e talvez até indigna, para mais tarde correr pra me confessar.

MEA CULPA, MEA MAXIMA CULPA... Como sou tapado me confessava e, bola pra frente!

 

Pensemos nisso quando, finalmente, conseguirmos assistir a missa completa e presencial, para enfim podermos comungar o verdadeiro sangue e carne de Jesus escondidos sob as espécies do pão e do vinho!



[1] HAHN, Scott. O quarto cálice: desvendando o mistério da Última Ceia e da Cruz. São Paulo: Quadrante, 2020, p. 124-125.

[2] Idem, ibidem, p. 134. Essa informação de que católico lê mais Bíblia que protestante no culto dominical é confirmada por Alex Jones (um pastor pentecostal convertido ao catolicismo) na sua obra Não tem preço.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O QUARTO CÁLICE (Scott Hahn ) – primeiro apontamento

Como todos já sabem estou desde o dia 20/03/2020 em isolamento aqui onde resido atualmente e admito que nem sempre é fácil. Há momentos em que a saudade dos parentes, amigos e conhecidos incomoda, além é claro de não poder mais sair pelas ruas despreocupadamente. Mas existem coisas mais importantes como cuidar dos pais idosos, e nesse momento só encontro forças para seguir adiante graças ao apoio de Deus. No resto, tombamos. Falo isso com experiencia própria.

Nessas horas a gente se cansa das baboseiras das redes sociais; dos debates infindáveis na TV; de ficar repassando a higienização de corpos, ambientes e coisas, e decidimos reagir aceitando e nos adaptando as circunstâncias. No meu caso, retomei com vigor as leituras.

Foi nesse contexto que li esse livro recente de Scott Hahn, O quarto cálice. (Cf.: https://www.quadrante.com.br/o-quarto-calice). 

Hahn, membro da Prelazia do Opus Dei nos Estados Unidos da América e escritor de talento e erudição, tratou desse tema aparentemente batido, porém mal compreendido: a instituição da Eucaristia na Quinta-Feira Santa e a Paixão de Jesus na Sexta-feira.

Hahn nos leva a reconstituir suas pesquisas sobre a Última Ceia de Jesus e como na celebração daquele dia memorável Jesus seguiu á risca o Seder judaico, ou seja, a rememoração da Páscoa Judaica, a fuga dos hebreus do Egito.

Como um detetive litúrgico, Hahn amplia nossa compreensão da celebração eucarística nos levando a conclusão de que entendemos precariamente o real significado da celebração eucarística.

Hahn demonstra ter uma erudição que não o leva a eliminar ou excluir autores que não comunguem da mesma visão de eclesiologia que ele, como pude comprovar pela leitura atenta da bibliografia. (Agradeço a Editora Quadrante por se importarem com pessoas como eu que valorizam livros com bibliografia e notas de rodapé. Obrigado, obrigado...).

 

Vou apenas comentar algumas poucas passagens que me chamaram a atenção e dividi-las em alguns posts. Espero que não prejudique o entendimento do livro.

 

Hoje vou deixá-los com uma breve reflexão sobre o mundo atual em que vivemos, um mundo que insiste em viver de costas para suas próprias tradições, querendo nos impor suas próprias:

 

“No século XXI, gostamos de pensar em nós mesmos como sagazes consumidores de notícias – ou mesmo de história. Somos céticos no que diz respeito a tradições. Gostamos de imaginar que somos exigentes na avaliação da veracidade das evidências. No entanto, temos também nossas tradições, das quais se destaca a proliferação anual de artigos e especiais televisivos que pretendem refutar o que o Novo Testamento diz sobre Jesus. Eles começam a pipocar em meio à Quaresma e multiplicam-se durante a Semana Santa. Trata-se de uma espécie de liturgia secular, com suas próprias proclamações, seus próprios recursos à autoridade e seu próprio caráter formativo. Entre seus alvos de costume encontra-se o caráter pascal da Última Ceia”[1].

 

Esse é o mundo que Deus escolheu para nós vivermos, e é através dele que chegaremos à santidade e ao Céu.

 

Até a próxima semana!



[1] HAHN, Scott. O quarto cálice: desvendando o mistério da Última Ceia e da Cruz. São Paulo: Quadrante, 2020, p. 51.


terça-feira, 7 de julho de 2020

PENSAR POR CONTA PRÓPRIA (Enrique Monasterio)


Há livros que durante décadas dormitam na sua estante até que um belo dia você cria coragem e os lê. Pensar por conta própria do padre Enrique Monasterio foi um deles até ontem a noite quando o terminei. Publicado por volta de 2000, ficou parado 20 anos nos meus armários, até que neste contexto de isolamento social chegou a vez dele de ser lido. Boa parte dos contos e reflexões do livro foram escritos na década de 90 do séc. XX e acabam soando antigas, como quando ele cita fitas cassete e velhos programas de TV, mas no geral mantém ainda atualidade nos assuntos que aborda.

A tese central do livro e que dá origem ao título é a de que no nosso tempo não se pensa mais livre e individualmente, como a atividade intelectual leva a concluir, mas a adotar umas duas ou três “filosofias de vida”, mesmo que essas novas filosofias sejam incoerentes entre si. A intenção de Monasterio não era escrever um tratado de moral, embora a moral cristã atravesse todas as suas reflexões muito bem humoradas, como logo perceberemos.
Por exemplo, quando ele comenta que: “O hedonismo – o selvagem e o refinado – é o último e o mais lamentável estágio do materialismo”[1]. Quando você lê essa afirmação sabendo que o autor é um sacerdote já espera algo como um sermão condenando o materialismo, etc... Pelo contrário, ele lembra uma conversa com um ex-colega de faculdade que disse:

“_Passei diretamente do marxismo para a gastronomia”.
“Riu de sua própria piada, fez uma pausa e continuou:”
“_Onde estava você em maio de 68? Eu estava aqui mesmo, mas era como se estivesse em Paris. Foi lá que tudo começou a afundar-se. Os velhos ideais comunistas já não serviam. Embora o muro [de Berlim] continuasse de pé, percebia-se claramente que por trás não havia nada: apenas meio século de mentiras”.
“_Nem poderia ser de outra forma – interrompi-o -, o marxismo...”.
“_Olhe, você não precisa convencer-me de coisa alguma. (Fez um gesto com a mão, como para afastar da mente um pesadelo). O marxismo era um monte de lixo... Que descanse em paz. Mas nós, que militávamos no Partido, queríamos fazer alguma coisa pelo povo, mesmo à custa de sacrifícios. Sonhávamos de verdade com uma sociedade igualitária e democrática. Maio de 68 foi a última revolução. Urgia enterrar os velhos sonhos e gozar a vida. Alguns descobriram o sexo. Agora, com o passar do tempo, só me resta a gastronomia”[2].

Após o anarco-libertarismo sexual da revolta estudantil dos anos 1960 o que ficou foi o materialismo mais aburguesado. Penso que em 2020 esse alerta ainda nos sirva.
Páginas adiante Monasterio nos alerta que esse desencanto com as utopias acaba desaguando no pessimismo aberto. Discordando da máxima que diz que a esperança é a última que morre, ele nos apresenta o quadro atual do pessimismo:

“Existe um pessimismo planetário (...). A camada de ozônio, o aquecimento global, as espécies em extinção, as calotas polares que se estão derretendo, a bomba demográfica (que vai encher de crianças – negras – o planeta), a Aids (que exterminará todas essas crianças), a poluição das águas, as mudanças climáticas, a escassez de alimentos, as manchas de petróleo, a vaca louca, a falta de filhos, o excesso de avós... (...)”.
“Existe um pessimismo na humanidade e nas estruturas humanas: a corrupção galopante, os partidos putrefatos, a voracidade dos bancos, a estupidez dos sindicatos, a negligência dos funcionários, as mentiras da imprensa, o negativismo dos jovens, o cinismo dos velhos, os testes nucleares, a direita que vem, a esquerda que não se vai, as seitas que nos invadem, as tribos urbanas...”. (...).
“Há um pessimismo pessoal, uma crise de ambição, que atinge os mais jovens. A culpa não é toda deles: fomos nós que lhes cortamos as asas. Do modo como estão as coisas, quase ninguém se atreve a sonhar alto. A Universidade está cheia de aspirantes a médicos que se conformariam com ser extirpadores de furúnculos pelo SUS; de prêmios Nobel em potencial que dariam qualquer coisa para garantir um lugar como ajudantes de laboratório...”.
“Porém, há principalmente um pessimismo quase metafísico que considera irreversíveis essas previsões. Por definição, nada tem solução”. (...).
“Daí que nossa sociedade seja tão conservadora, no sentido mais profundo da palavra. Poucos acreditam numa mudança. Refiro-me, evidentemente, à mudança pessoal, à conversão, à possibilidade de nos tornarmos diferentes, de aspirar ao mais alto... A outra mudança, aquela que os políticos prometem, é apenas uma mudança de paisagem para que tudo continue na mesma”[3].

A consequência dessa cultura do pessimismo é a desilusão com a vida que leva os jovens a caírem na droga, e para anestesiarem o pessimismo que já os dominou por completo, vão se valendo de drogas cada vez mais pesadas. Para evitar não morrer de overdose e/ou pessimismo o homem moderno encontra um sucedâneo nas ideologias ou linhas de pensamento dominantes. Aqui você poderia dar o nome contemporâneo que quiser: politicamente correto, globalismo, nova ordem mundial, marxismo cultural, etc. e tal. Nas definições do nosso autor:

“(...) ‘a ideologia é um todo, que se deve aceitar e assumir em nível de militância na sua integridade programática, no marco da luta solidaria por uma libertação integral – e de classe – do biótipo humano’. O que, traduzido em bom português, significa:”.
“_Olhe, Celidônio: é pegar ou largar. As ideias se vendem em lotes. É que estão em oferta, sabia?”[4].

A consequência final desse deixar que outros pensem por você é que se tentar remar contra a corrente as consequências podem ser drásticas:

“(...) ser respondão e tratar de pensar por conta própria é uma decisão arriscada. Num instante afixam-lhe uma etiqueta de grosseiro, conservador, covarde e provavelmente fascista, adjetivo de muito efeito, que ninguém mais sabe o que significa e provavelmente equivale a ‘mau’ ou ‘feio’”[5].

Conclusão

Antes de mais nada, queria dizer que amei a leitura desse livro, mesmo que tenha demorado vinte anos pra finalmente terminá-lo! A distância de 20 anos de sua publicação não o envelheceu por completo. Pelo contrário, noto que muitos dos assuntos que em 2000 ele apenas esboçou hoje se tornaram realidade.
Outro ponto importante a destacar é o alerta de Monasterio sobre o risco que implica a cada um de ir contra a corrente de pensamento dominante, especialmente se a corrente da moda investe contra a moral e a valores inegociáveis do cristianismo como a vida humana do momento de sua concepção até o seu término natural.
Livros como Pensar por conta própria são cada dia mais essenciais.


[1] MONASTERIO, Enrique. Pensar por conta própria. Trad.: Élcio de Oliveira Lima. São Paulo: Quadrante, 2000, p. 74.
[2] Op. cit., p. 74-75.
[3] Op. cit., p. 136-137.
[4] Op. cit., p. 160-161.
[5] Op. cit., p. 167


domingo, 21 de junho de 2020

REFLETINDO SOBRE “MULHERZINHAS” – IV (postagem final)



Um dos pontos mais tensos do catolicismo contemporâneo refere-se ao ecumenismo e diálogo inter-religiosos. No espaço de apenas duas gerações (cinquenta e cinco anos desde o encerramento do Concílio Vaticano II - 1962-1965) transitamos de uma Igreja Católica “fortaleza sitiada pelo mundo moderno” e fechada ao diálogo com crentes e não crentes, para uma Igreja que aparentemente deixou de lado o apostolado e a preocupação em converter e conquistar almas para Cristo passando a aceitar tudo que o mundo tem a oferecer, mesmo que o que o mundo ofereça não coincida com os ensinamentos de Jesus.
Essa dialética da continuidade vs ruptura permeia os estudos sobre o último concílio ecumênico da Igreja Católica[1], e na minha modesta opinião nos joga para o fundo de um beco sem saída já que aqui não poderíamos nos “isentar” desse debate: ou se entende o Vaticano II como ruptura com a Tradição da Igreja Católica, inserindo o pensamento moderno secular e irreligioso dentro da Igreja – a “entrada da fumaça de Satanás pelas rachaduras da Igreja” (Papa São Paulo VI):

“Tem-se a sensação de que a fumaça de Satanás entrou dentro do templo de Deus por alguma fissura. Encontramos dúvidas, incertezas, problemáticas, inquietações, insatisfações e conflitos. Já não se confia na Igreja. (...) A dúvida entrou nas nossas consciências e entrou pelas janelas que deviam estar abertas à que, depois do Concílio [Vaticano II], viria um dia de sol para a história da Igreja, mas veio um dia de nuvens, de tempestade, de busca, de incerteza”[2].

Ou então, entendemos o Vaticano II como continuidade na História da Igreja e seus 20 concílios ecumênicos, ponto de vista defendido entre outros pelos papas dos últimos 40 anos. O debate continua, com acusações de ambos os lados.
De qualquer modo, parece que esquecemos nesses 55 anos que o primordial do católico é fazer apostolado, atrair novos prosélitos a Igreja de Jesus Cristo. Essa é a origem da palavra proselitismo: fazer prosélitos, novos iniciados na doutrina cristã. Quando professamos nosso batismo dizemos a seguinte frase do Credo Niceno-constantinopolitano: “creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”.
Fazer apostolado é e deve ser a marca do cristão. Mas o apostolado não deve ser uma atividade bitolada e chata, como a que exercem certos cristãos irmãos de outras denominações tocando as campainhas de nossas casas nas manhãs de domingo. Para São Josemaría Escrivá o apostolado deve se realizar em ambiente de: “confidência e amizade”, um a um, cara a cara, com a maior naturalidade possível, sempre respeitando a sensibilidade e a formação psicológica e intelectual do amigo.

No nosso romance Mulherzinhas há um belo exemplo de uma católica que, sem respeitos humanos mas cheia de delicadeza ensina a evangélica Amy o que é o rosário, a imemorial devoção à Nossa Senhora onde o católico reza Aves-Marias intercaladas por Pai-Nossos, meditando os mistérios da Encarnação, Vida Pública, Paixão e Morte de Jesus.
Amy parou na casa da “tia March” após a doença de sua irmã Beth. Lá, entre os diversos afazeres domésticos que ela teve que assumir para agradar a tia, um belo dia ela vê dependurado num espelho algo que nunca havia visto: um colar de contas de madeira. Nesse momento a empregada da tia, católica francesa, aparece e as duas começam a conversar sobre o estranho colar:

_Se fosse para escolher, qual preferia, Mademoiselle? – perguntou Ester, que sempre estava junto dela para guardar as coisas preciosas, depois de haverem sido vistas.
_Penso que preferiria esta espécie de colar – respondeu Amy, contemplando com grande admiração um cordão de ouro, de contas de ébano, do qual pendia pesada cruz daquele metal.
_Quanto a mim, desejaria o mesmo, não, porém, para usar como colar; para mim isto é um rosário e usá-lo-ia como boa católica – disse Ester olhando invejosamente para o lindo enfeite.
_Devem-se utilizar do mesmo modo aquelas contas de madeira perfumada que vi penduradas em seu espelho? – perguntou Amy.
_Sim, perfeitamente, são para se rezar. É muito agradável aos santos que alguém use um rosário tão lindo como este, em vez de algum outro sem valor.
_Parece que suas orações confortam muito, Ester, pois anda sempre calma e satisfeita. Desejaria ser assim.
_Se Mademoiselle fosse católica, encontraria o verdadeiro conforto espiritual; como isto, porém não se dá, seria bom que reservasse parte do dia para meditar e orar, como fazia a boa senhora que eu servia antes de Madame [tia March]. Possuía uma pequena capela e nesse lugar achava consolo para muitas dores.
_Seria bom para mim proceder assim também? – perguntou Amy que na sua solidão sentia a falta de um auxílio qualquer e achava que iria esquecer o seu livrinho agora que Beth não estava perto para trazê-lo à sua lembrança.
_Seria excelente e encantador; e eu de boa vontade lhe prepararei para esse fim, se quiser, o pequeno quarto de vestir. Nada diga a Madame, mas quando ela adormecer vá para lá e sente-se sozinha um instante a tomar boas resoluções e a pedir a Deus que salve sua irmãzinha [Beth, que nesse momento estava doente de escarlatina][3].

O resultado da conversa com a empregada não se fez esperar. Amy passa a rezar mais, pelas intenções de sua família:

A menina fazia tudo isso com sinceridade porque, só e ausente do seu lar, sentia a necessidade de uma bondosa mão que a guiasse com segurança e por isso voltara-se instintivamente para o Amigo [Deus] forte e carinhoso, cujo amor paternal envolvia suavemente sua filhinha adorada. Sentiu a falta da mãe [sra. March] para guia-la e compreendê-la; tendo, porém, aprendido para quem devia recorrer, diligenciava encontrar o bom caminho para segui-lo confiante[4].

Mais adiante Amy aparece pedindo a intercessão de Maria de Nazaré para toda a sua família.

Como podemos ver, uma conversa simples e despretensiosa pode levar uma amiga, parente, conhecido, colega de trabalho a se aproximar um pouco mais de Deus. Não devemos nos acovardar e dizer que isso de evangelizar não é com a gente, que não temos tempo, não levamos jeito pra coisa... etc. São Josemaría nos dizia que nem todos podem ser sábios, mas todos podem ser santos, apóstolos de Apóstolos. Nas palavras do vigário regional do Opus Dei no Brasil:

“A maioria de nós não se imagina sobre um palco contando como passamos a ser mais generosos com o nosso tempo após termos crescido em intimidade com Cristo, ou como a descoberta da importância de ganhar virtudes mudou o nosso comportamento. No entanto, são justamente esses pequenos testemunhos do dia a dia que tocam os corações, quando feitos com sinceridade, num clima de abertura e confiança”[5].


[1] A bibliografia produzida nos últimos 55 anos sobre o Vaticano II é vastíssima, e mesmo um artigo não seria capaz de abordar minimamente bem os autores, as linhas interpretativas e as pesquisas sobre o maior evento da Igreja Católica no séc. XX. Aqui deixo indicadas duas obras que resumem minimamente as visões sobre o evento conciliar: BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II: 1959-1965. São Paulo, Paulinas: 2005; MATTEI, Roberto de. O Concílio Vaticano II: uma história nunca escrita. São Paulo: Ambientes e Costumes, 2013.
[2] Paulo VI. Homilia no IX aniversário da coroação, 29 de junho de 1972. Apud: MATTEI, Roberto de. O Concílio Vaticano II: uma história nunca escrita. São Paulo: Ambientes e Costumes, 2013, p. 471-472
[3] ALCOTT, Louise May. Mulherzinhas. 5ª edição revista. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969, p. 200-201.
[4] ALCOTT, Louise May. Mulherzinhas. 5ª edição revista. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969, p. 202.
[5] CARVALHEIRO, Fábio Henrique. Pescadores de homens: o apostolado cristão para quem vive no meio do mundo. São Paulo: Quadrante, 2020, p. 56.

domingo, 14 de junho de 2020

REFLETINDO SOBRE “MULHERZINHAS” – III


No post anterior tratei da convivência no lar e seus desafios. Para hoje selecionei outra passagem onde o tema é o matrimonio e a escolha do par.
Não nos enganemos: no universo de Mulherzinhas as moçoilas sonham em casar e ter filhos. Sim... muito opressor para nossos ouvidos acostumados com a realização individual e material, pensando que: “a mulher tem tanta necessidade de homem quanto de um peixe!”. No mundo de Mulherzinhas você abre mão de coisas boas em si na busca de um bem maior, seja o bem estar dos filhos, o controle do próprio temperamento, entre outras coisas.
Mas Alcott coloca na boca da sra. March uma série de alertas para as molecas que andavam a pairar no ar sonhando com o “príncipe encantado”. É um banho de realismo:

_Quero que minhas filhas sejam belas, bem educadas e boas; que sejam admiradas, amadas e respeitadas; que tenham uma mocidade feliz, façam um bom casamento e tenham uma vida útil e venturosa, tendo apenas os cuidados e tristezas que Deus for servido dispensar-lhes. Ser escolhida e amada por um homem digno é a coisa melhor e mais suave que possa desejar uma mulher; e eu tenho sincera esperança de que minhas filhas hão de conhecer este prazer. É muito natural pensar nele, Meg; muito conveniente aguardá-lo e muito prudente prepara-lo; assim, quando chegar esse tempo feliz, você poderá sentir-se, apta para cumprir os seus deveres e pronta para a felicidade. Minhas filhas queridas, eu tenho ambições; não, porém, de fazer de vocês um joguete do mundo, casando-as com homens ricos meramente porque são ricos, para terem palácios esplendidos que não são lares, porque lhes faltará o amor. O dinheiro é coisa necessária e preciosa – e, quando bem empregado, um metal nobre – porém jamais desejo que o julguem o primeiro ou o único bem a procurar. Prefiro vê-las esposas de homens pobres, mas felizes, amadas, satisfeitas, a vê-las em tronos de rainhas mas degradadas a seus próprios olhos e sem paz de espírito.
_Belle diz que as moças pobres não acham casamento se não se esforçarem para isso – disse Meg suspirando.
_Então ficaremos todas solteironas – replicou Jo com firmeza.
_Justamente, Jo; é preferível ser uma solteirona velha e feliz a uma esposa desgraçada ou moça desenvolta à caça de um marido – afirmou a sra. March. Não se aborreça, Meg; a pobreza raras vezes afugenta ao homem que ama com sinceridade. Algumas das mulheres mais felizes e mais honradas que conheço foram moças pobres, porém tão dignas de ser amadas que não ficaram solteironas. Deixem estas coisas para o tempo oportuno[1].

Josemaría Escrivá que nos ensinava que: “Sonhai e ficareis aquém”. O idealismo sempre fica abaixo da realidade porque não tem raízes concretas. A vida a dois é feita de um sem número de pequenas coisas aparentemente desprezíveis: deixar tudo limpo e asseado, organizado e digno; ser lento ao julgar e mais lento ainda em repreender, mas quando for preciso dar a repreensão faça-o sem demora, porém com caridade e paciência; procurar fazer sempre boa cara porque: “um santo triste é um triste santo” (s. Josemaría Escrivá).

Em outro momento memorável do livro as irmãs declaram que estavam cansadas das tarefas cotidianas de costurar, cozinhar, limpar, organizar a casa e estudar. Aí a mãe, com uma sabedoria verdadeiramente salomônica decide fazer “uma experiencia”: por uma semana deixar a casa ao ritmo que as filhas queriam dando espaço para as coisas favoritas delas. Os resultados não demoraram a aparecer:

_Sim; queira que vocês compreendessem que o conforto depende do fiel cumprimento do dever de cada qual. Enquanto Hannah [a governanta] e eu trabalhamos para vocês, acham-se muito bem, embora eu não julgue que sejam muito felizes; eu pensava, pois, que era preciso uma liçãozinha para demonstrar-lhes o que acontece quando a gente pensa egoisticamente em si só. Não sentiram que é mais agradável auxiliarem-se umas às outras, ter ocupações diárias, que tornam os lazeres mais suaves quando chega sua hora, suportar com paciência os trabalhos, e que assim a casa se pode tornar mais agradável e alegre para todas nós?
_Sim, mamãe, tem razão – exclamaram as irmãs.
_Então permitam que as aconselhe a retomar de novo seus ‘fardos’; conquanto pareçam às vezes pesados, são bons para todos, tornando-se leves quando os aprendemos a carregar. O trabalho é agradável e prodigaliza abundância para todos; resguarda-nos do aborrecimento e dos males; é útil para a saúde e para o espírito, dá-nos o sentimento do poder e da independência, muito melhor que o dinheiro ou o luxo[2].

Para Alcott o trabalho tem valor porque dignifica o homem, embora tenha um valor predominantemente ascético, de mortificação corporal. O trabalho enrijece o caráter, o torna mais ordeiro e responsável com o uso dos bens materiais.
Já o catolicismo não vê as coisas assim. Durante uma tertúlia perguntaram a S. Josemaría Escrivá se, além do trabalho que outra mortificação se devia viver para crescer na vida cristã. E o “Nosso Padre” (como nós o chamamos carinhosamente no Opus Dei) de imediato disse que não, que o trabalho dignifica o homem porque é o meio para ele atingir sua perfeição espiritual, é oração e meio de santificação pessoal, dos seus colegas de trabalho, e também para conseguir prestígio profissional. A consequência dessa maior laboriosidade é a melhora na eficácia apostólica: o bom exemplo na vida atrai almas para Cristo.
A vida cotidiana tem um valor imenso para Deus e para o bem de todos seja cuidando dos filhos, trabalhando no computador, cimentando tijolos, varrendo ruas ou pilotando um carro de corridas. “A grandeza da vida corrente” era o título de uma das mais conhecidas homilias de s. Josemaría Escrivá, Fundador do Opus Dei, e a sua maneira norma de conduta de Alcott.
A felicidade não se constrói com castelos no ar, mas com pessoas reais de carne e osso com boas disposições de caráter que colocavam no momento certo as mãos na massa.


[1] ALCOTT, Louise May. Mulherzinhas. 5ª edição revista. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969, p. 105.
[2] ALCOTT, Louise May. Mulherzinhas. 5ª edição revista. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969, p. 125.

terça-feira, 9 de junho de 2020

REFLETINDO SOBRE “MULHERZINHAS” - II


Como eu havia dito no dia 01/06/2020, nos próximos dias tratarei do livro de Alcott Mulherzinhas. Faço isso porque, como já havia dito na postagem anterior, o romance na sua aparente monotonia nos coloca questões candentes sobre o comportamento e a vida familiar. Hoje o ponto em destaque é a convivência entre irmãs e a vida em família.
No momento exato em que escrevo a convivência familiar é posta sob uma dura prova. O isolamento social testa até o limite a capacidade de convivermos com pessoas diversas e próximas em ambientes limitados, somada a uma crise social, econômica, psíquica e espiritual. E aí, inevitavelmente, as brigas ocorrem.
É assim até nas melhores famílias.
No universo de Mulherzinhas ocorre algo parecido entre as irmãs Amy e Jo. Jo gosta de escrever e prepara um livro de contos e prosa para mostrar ao pai ausente na guerra, mas ela se desentende com a irmã mais nova e a menina, de raiva, queima o precioso livro. Uma discussão ocorre, como não poderia deixar de ser, e as duas irmãs prometem nunca mais se falar na vida. No dia seguinte Amy e Jo saem para patinar no lago congelado, cada uma seguindo por uma direção diferente. Jo percebe que o gelo no meio do lago está fino e perigoso, mas ainda aborrecida pela perda do precioso livro, não avisa a irmã que cai na àgua congelante, e, se não fosse a ação imediata do vizinho ela teria morrido. Após o resgate e os primeiros socorros a Amy, Jo demonstra remorso pela briga do dia anterior. É nesse momento que a mãe se aproxima dela para conversar:

Quando Amy estava dormindo confortada e a casa de aquietara, a sra. March, sentada à beira do leito, chamou Jo para junto de si, pensando-lhe as mãos feridas.
_Tem certeza que ela está salva? – sussurrou Jo, fitando cheia de remorso a loura cabecinha que podia ter desaparecido de sua vista para sempre, sob o gelo traiçoeiro.
_Completamente fora de perigo, minha filha; não se feriu e nem sequer se resfriou, creio eu; foi bom vocês terem tido o cuidado de embrulhá-la e traze-la imediatamente para casa – disse-lhe a mãe ternamente.
_Foi Laurie [o vizinho] quem fez tudo; o que fiz foi deixa-la ir para o meio do rio; eu somente auxiliei. Se ela morresse, mamãe, a culpa seria minha; - e Jo atirou-se à cama, derramando lágrimas de arrependimento, contando tudo o que acontecera, recriminando-se pela dureza de seu coração e chorando de ventura por lhe ter sido poupado o terrível castigo que poderia ter recebido. – Foi o meu maldito gênio! Procuro modificá-lo, mas quando penso que o dominei, ele irrompe ainda pior. Oh, mamãe, que devo fazer? Exclamava a chorar, a pobre e desesperada Jo.
_Vele e ore, minha filha; não se canse nunca de o tentar, nem julgue nunca impossível reparar sua falta – disse a sra. March, achegando-a de seu ombro e beijando-lhe a face úmida com tanta ternura que Jo prorrompeu num choro mais convulsivo ainda.

A seguir Jo pergunta a mãe qual o segredo para ela manter-se serena diante das crises familiares, e a resposta da sra. March é surpreendente (pelo menos para mim):

_Minha boa mãe ajudava-me...
_como a senhora faz, interrompeu Jo com um beijo de gratidão.
_Eu, porém, perdi-a quando era muito mais nova que você, e durante muitos anos tive de lutar sozinha, porque era bastante orgulhosa para confessar minha fraqueza a alguém. Foi uma luta, Jo, e derramei muitas lágrimas amargas pelos meus defeitos pois, a despeito de meus esforços, parecia que jamais os venceria. Apareceu então seu pai e eu senti-me tão feliz que achei facílimo tornar-me boa. Logo, porém, que, em nossa pobreza, me vi cercada de quatro criancinhas, novamente começaram os ímpetos antigos, porque não sou paciente por natureza e era para mim um sofrimento ver minhas filhas passarem necessidades.
_Pobre mamãezinha! E quem a auxiliou, então?
_Seu pai, Jo. Jamais perdeu a paciência, nunca teve dúvidas nem queixas – sempre esperanças e esforços e tão alegre sempre, que sentiria vexame quem procedesse de outra maneira diante dele. Auxiliava-me, confortava-me, mostrando-me que eu devia praticar todas as virtudes que eu desejava que minhas filhas possuíssem, pois seria o exemplo para elas. Foi mais fácil esforçar-me por amor de vocês que por mim mesma (...)[1].

Um homem muito mais sábio do que eu já havia dito: “A alegria tem raízes em forma de cruz” (s. Josemaría Escrivá). A Sra. March aprendeu a duras penas que sem sacrifício não conseguiria vencer-se e conseguir criar as filhas. O resultado final foi ótimo: quatro filhas ajuizadas, mas a custo de sacrifícios e esquecimento próprio. Arranca rabos são inevitáveis, mas o que podemos fazer é procurar controlar os nervos, pedir auxílios a quem tem critério, e se possível orar a Deus pedindo luzes e paciência, porque se dependesse da nossa parte, nada feito!
Alguém poderia dizer que a Sra. March deveria ter “largado mão” e saído para curtir a vida loka. De fato, mas será que qualquer um de nós seria o que é hoje sem o auxílio silencioso e amoroso dos pais ou de algum outro responsável que estava de olho para que não nos faltasse nada? A verdade é que nenhum de nós seria o que é hoje sem alguém que assumisse responsabilidades ou dirigisse alguma instituição que desse apoio a quem pudesse cuidar de nós.

E termino por aqui.


[1] ALCOTT, Louise May. Mulherzinhas. 5ª edição revista. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969, pp. 84-86.