segunda-feira, 1 de junho de 2020

REFLETINDO SOBRE “MULHERZINHAS” - I


Caros amigos, há quanto tempo hein?
Essa pandemia só aumentou meus encargos e obrigações! Compras, medicamentos, faxinas, lavar e higienizar tudo. Ufa!!!!!! Sigo lutando para me manter mentalmente são e lendo, escrevendo, estudando e quando posso publico estes posts sobre assuntos edificantes.
Por isso a ordem aqui e agora é: chega de obituários jornalísticos e crises político-sociais! (Em outro momento pretendo falar desta crise que só tem, na minha opinião, paralelo com o fim do mundo antigo (sécs. IV-V). Mas, como disse: chega disso!).
Quero nos próximos dias só falar de Mulherzinhas, o livro da escritora Louise May Alcott[1].

A primeira referência a este livro eu obtive décadas atrás ao ler Como fazer amigos e influenciar pessoas de Dale Carnegie, que cita a obra de Alcott. Anos mais tarde foi lançado o filme homônimo com a atriz Susan Sarandon no papel da matriarca da família March e Winona Rider como uma das filhas (cf.: https://www.youtube.com/watch?v=P5tTqhSIL_g&list=WL&index=22&t=43s). A versão de 2019 com Emma Watson no papel de uma das filhas March não assisti (ainda).
Eu havia criado a ideia de que o livro era apenas um romance de menininha romântico e açucarado. Anos atrás eu adquiri de segunda mão um exemplar, mas ele ficou anos numa estante, e só comecei a lê-lo neste mês de maio de 2020. Surpresa: o livro é muito bom!


Resumidamente, a trama desenrola-se durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) e tem como protagonistas a família March. O pai está ausente, convocado a servir no exército da União contra os Confederados sulistas[2] e na casa estão a esposa e as quatro filhas. Até aí, uma história bem convencional, até meio monótona.
Alcott possui um estilo muito simples e fluido, extraindo diálogos e situações interessantíssimas de acontecimentos banais do dia a dia: irmãs conversando sobre coisas de mulher, a mãe sempre de olho para que nenhuma das filhas “saia da linha”, os amigos e familiares a girar em torno do lar acolhedor, a religiosidade simples e sem beatices. Lembro-me bem que á época do lançamento do filme perguntaram a Susan Sarandon o que mais a impressionou ao viver a matriarca e ela respondeu mais ou menos assim: “As mulheres daquela época (séc. XIX) eram bem resolvidas”, ou seja: realizavam as tarefas do lar com alegria, o que não as impedia de desenvolverem dons artísticos como pintar ou escrever poemas e contos.
Para Edith Stein há uma grande pressão social para desenraizar a mulher. A partir do momento em que as preocupações com o trabalho e o sucesso profissional se sobrepõe a constituição da família é inevitável que o sentido cristão do casamento esteja ameaçado. Para Stein é fundamental compreendermos o papel da mulher no mundo moderno:

“O sentido triplo do matrimônio que a Igreja expressa nas palavras fides, proles, sacramentum precisa ser resguardado hoje contra a investida das opiniões de massa que acabaram derrubando a moral burguesa. Que ele seja resguardado é uma questão vital para o nosso povo e para toda a humanidade. Não existe outra base teórica para resguardá-lo do que a doutrina católica. Para que possa ser resguardado é necessário que existam mulheres que o compreenderam em toda a sua profundidade e que orientam a sua vida por ele; mulheres preparadas para resistir à investida das ideias da época e para apoiar suas irmãs”[3].

Para Stein a mulher possui uma serie de atributos que a qualificam a ser a provedora do lar: atenção, carinho, dedicação plena e exclusiva para a sua família e aos demais, intuição feminina. A mulher pode ser sim o que quiser e ir onde quiser, mas ela pode ser primordialmente mãe e esposa. Cabe a cada mulher usar de seu livre arbítrio para decidir se a maternidade fará parte de sua vocação, ou não. Em outra passagem de sua obra, Stein destaca a igualdade entre homem e mulher:

“Não se fala aqui [Livro do Gênesis] em domínio do homem sobre a mulher. Ela é chamada de companheira e de ajudante, e ao homem se diz que ele se unirá a ela e que ambos formarão uma só carne. Assim, dá-se á entender que a vida ao primeiro casal humano deva ser entendida como a mais íntima comunidade de amor, que tenham cooperado em harmonia perfeita das forças; assim como, antes da queda, em cada um deles, individualmente, todas as forças eram cheias de harmonia, os sentidos e a mente na proporção certa, sem possibilidade de antagonismos. Por isso mesmo, nem conheciam o desejo desordenado pelo outro. É isso que está expresso nas palavras: Estavam nus e não se envergonhavam”[4].

Mulheres felizes em ser o que eram, sem a pressão social em adotar arquétipos. Essa talvez seja a primeira lição que a leitura de Mulherzinhas nos coloca. Mas veremos nos próximos dias que há outras lições a serem aprendidas.

Até mais!

[1] ALCOTT, Louise May. Mulherzinhas. 5ª edição revista. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969, 243 pp.
[2] A Guerra Civil Americana, também conhecida como 2ª Revolução Americana (a 1ª teria sido a Guerra de Independência de 1776-1781) resumidamente, dividiu o país em dois: os que defendiam a manutenção da escravidão e os que defendiam a abolição da escravatura. Os que defendiam a manutenção da escravidão eram os estados Confederados ou sulistas. Já os que defendiam a abolição da escravatura foram chamados de Unionistas ou Ianques.
[3] STEIN, Edith. A mulher – sua missão segundo a natureza e a graça. Trad.: Alfred Keller. Bauru - SP, EDUSC. P. 50.
[4] STEIN, Edith. A mulher – sua missão segundo a natureza e a graça. Trad.: Alfred Keller. Bauru - SP, EDUSC. p. 77.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

SOBRE A PANDEMIA E A NECESSIDADE DE NOS VOLTARMOS A DEUS

Há tempos eu estava pensando em um texto sobre a pandemia, mas infelizmente as necessidades do tempo presente não me deixavam tempo nem disposição para tanto. 
Mas esta tarde eu trocava mensagens pelo whatsapp com um senhora amiga minha e ela resumiu muito bem o que eu realmente penso sobre tudo isso. (Segue um trecho da postagem dela editado para não comprometer sua identidade). 

"Eu também acho q esta pandemia veio para consertar, para ensinar a sofrer e lembrar q Deus existe, e para aprendermos q tudo é passageiro, tudo é supérfluo, em comparação com a nossa filiação divina e o destino eterno! 
Nos ensina  a dar valor a muita coisa,  q já não estava  tendo mais...
É um  “puxão de orelha” nos homens, que continuam querendo ser deuses...
(...) paz, saúde e alegria em Deus!  🌿🌅🙏

Em um próximo post espero desenvolver mais ideias sobre a pandemia. 

Boa tarde a todos!!!!!!

Edison Minami


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Mircea Eliade: Valor dos Evangelhos

(No contexto da Páscoa cristã, vale a pena lermos um texto de um grande historiador das religiões tratando da historicidade dos Evangelhos. Aproveito e desejo uma feliz Páscoa a todos que pacientemente me seguem!).


“Vejamos agora como os Padres procuraram defender a historicidade de Jesus, tanto contra os incréus pagãos como contra os ‘heréticos’. Defrontados com o problema de apresentar a vida autêntica de Jesus, ou seja, tal qual foi conhecida e transmitida oralmente pelos Apóstolos, os teólogos da Igreja primitiva encontraram-se perante um certo número de textos e tradições orais que circulavam em diferentes meios. Os Padres deram provas de espírito crítico e orientação ‘historicista’ ao se recusarem a considerar os Evangelhos apócrifos e as logia agrapha como documentos autênticos. Eles abriram não obstante as portas para longas controvérsias no seio da Igreja e facilitaram a ofensiva dos não-cristãos ao aceitar não um, mas quatro Evangelhos. Como havia diferenças entre os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de João, foi preciso explicá-las e justificá-las pela exegese”.
“A crise exegética foi precipitada por Marcion, em 137. Marcion proclamava que existia um único Evangelho autêntico, que de início foi transmitido oralmente, e depois redigido e pacientemente interpolado pelos adeptos entusiastas do judaísmo. Esse único Evangelho declarado válido era o de Lucas, reduzido por Marcion ao que ele julgava ser o núcleo autêntico. Marcion havia aplicado o método dos gramáticos greco-romanos, que afirmavam poder distinguir as excrescências mitológicas dos antigos textos teológicos. Em sua réplica a Marcion e aos outros gnósticos, os ortodoxos foram obrigados a usar o mesmo método”.
“Em princípios do II século, Aelius Theon, em seu tratado Progymnasmata, mostrava a diferença entre o mito e a narração: o mito é ‘uma exposição falsa retratando a verdade’, ao passo que a narração é ‘uma exposição descrevendo os eventos que ocorreram ou que poderiam ter ocorrido’. Os teólogos cristãos negavam, evidentemente, que os Evangelhos fossem ‘mitos’ ou ‘histórias maravilhosas’. Justino, por exemplo, não admitia que pudesse existir o risco de confundir os Evangelhos com ‘histórias maravilhosas’. A vida de Jesus era a realização das profecias do Antigo Testamento, e a forma literária dos Evangelhos não era a de um mito. Melhor ainda: Justino sustentava que era possível oferecer ao leitor não-cristão provas materiais da veracidade histórica dos Evangelhos. A Natividade, por exemplo, poderia ser demonstrada através das ‘declarações de imposto apresentadas sob o procurador Quirino e (ex hypothesi?) acessíveis em Roma um século e meio mais tarde’. Similarmente, um Taciano ou um Clemente de Alexandria consideravam os Evangelhos como documentos históricos”.
“Para o nosso escopo, porém, o mais importante é Orígenes. Orígenes estava demasiadamente convicto do valor espiritual das histórias conservadas pelos Evangelhos para admitir que se pudesse compreendê-las de uma maneira, grosseiramente literal, como o faziam os simples crentes e os heréticos - razão por que ele pregava a exegese alegórica. Mas, forçado a defender o cristianismo contra Celso, ele insistiu na historicidade da vida de Jesus e esforçou-se por provar todos os testemunhos históricos. Orígenes critica e rejeita a historicidade do episódio dos mercadores expulsos do templo. Em seu sistema, que trata da inspiração e da exegese, Orígenes nos diz que nos pontos onde a realidade histórica não se harmonizava com a verdade espiritual, as Escrituras introduziam em suas narrativas certos eventos, alguns totalmente irreais, outros que não poderiam ter ocorrido e outros ainda que poderiam ter ocorrido mas não Ocorreram’. Em lugar de ‘mito’ e ‘ficção’, ele usa ‘enigma’ e ‘parábola’; mas não há dúvida de que para Orígenes esses termos são equivalentes”.
“Orígenes reconhece, portanto, que os Evangelhos apresentam episódios que não são historicamente ‘autênticos’, embora sejam ‘verdadeiros’ no plano espiritual. Mas, ao responder às críticas de Celso, ele reconhece igualmente a dificuldade de provar a historicidade de um evento histórico. ‘Tentar estabelecer a verdade de qualquer história como fato histórico, mesmo que a história seja verdadeira, é tarefa das mais difíceis e, algumas vezes, impossível’”.
“Orígenes acredita, não obstante, que certos eventos da vida de Jesus são suficientemente provados por testemunhos históricos. Por exemplo, Jesus foi crucificado perante um grande número de pessoas. O tremor de terra e as trevas podem ser confirmados pelo relato histórico de Phiegon de Tralles. A ultima Ceia é um acontecimento histórico que pode ser datado com absoluta precisão. O mesmo se dá com a prova do Getsêmane, embora o Evangelho de João não o mencione (mas Orígenes explica a razão desse silêncio: João se interessa mais pela divindade de Jesus e sabe que Deus, o Logos, não pode ser tentado). A ressurreição é ‘verdadeira’ no sentido histórico do termo, porque é um evento, embora o corpo ressuscitado não mais pertença ao mundo físico. (O corpo ressuscitado era um corpo aéreo, espiritual)”.
“Embora Orígenes não duvide da historicidade da vida, paixão e ressurreição de Jesus Cristo, ele se interessa mais pelo sentido espiritual, não-histórico, do texto evangélico. O verdadeiro sentido está ‘além da história’. O exegeta deve ser capaz de se ‘livrar dos materiais históricos’, pois estes não passam de um ‘trampolim’. Insistir excessivamente na historicidade de Jesus, negligenciar o sentido profundo de sua vida e de sua mensagem, é mutilar o cristianismo. ‘Os homens - escreve ele em seu Comentário ao Evangelho de Jesus - ficam maravilhados quando consideram os eventos da vida de Jesus, mas se tomam céticos quando lhes é revelada a significação profunda, que eles se recusam a aceitar como verdadeira’”.
“Orígenes compreendeu perfeitamente que a originalidade do cristianismo está, em primeiro lugar, no fato de a Encarnação se haver efetuado num Tempo histórico e não num Tempo cósmico. Ele não esquece, entretanto, que o Mistério da Encarnação não pode ser reduzido à sua historicidade. Por outro lado, ao proclamar ‘às nações’ a divindade de Jesus Cristo, as primeiras gerações de cristãos proclamavam implicitamente sua trans-historicidade. Não que Jesus não fosse considerado um personagem histórico; mas acima de tudo salientava-se que ele era o Filho de Deus, o Salvador universal que redimira não somente o Homem, mas também a Natureza. Mais ainda: a historicidade de Jesus já havia sido transcendida por sua Ascensão ao Céu e por sua reintegração na Glória divina”.
“Ao proclamar a Encarnação, a Ressurreição e a Ascensão do Verbo, os cristãos estavam convictos de que não apresentavam um novo mito. Na realidade, eles se utilizavam das categorias do pensamento mítico. Evidentemente, eles não podiam reconhecer esse pensamento mítico nas mitologias dessacralizadas dos pagãos eruditos seus contemporâneos. Mas é óbvio que, para os cristãos de todas as confissões, o centro da vida religiosa é constituído pelo drama de Jesus Cristo. Embora representado na História, esse drama possibilitou a salvação; conseqüentemente, existe apenas um meio de obter a salvação: repetir ritualmente esse drama exemplar e imitar o modelo supremo, revelado pela vida e pelo ensinamento de Jesus. Ora, esse comportamento religioso faz parte do pensamento mítico autêntico”.
“É preciso acrescentar imediatamente que, pelo fato mesmo de ser uma religião, o cristianismo teve de conservar ao menos um comportamento mítico: o tempo litúrgico, ou seja, a recuperação periódica do illud tempus do ‘princípio’. ‘A experiência religiosa do cristão baseia-se na imitação de Cristo como modelo exemplar, na repetição litúrgica da vida, morte e ressurreição do Senhor, e na contemporaneidade do cristão com o illud tempus, que se inicia com a Natividade em Belém e se encerra, provisoriamente, com a Ascensão’. Ora, como vimos, ‘a imitação de um modelo trans-humano, a repetição de um enredo exemplar e a ruptura do tempo profano mediante uma abertura que desemboca no Grande Tempo, constituem as notas essenciais do ‘comportamento mítico’, isto é, do homem das sociedades arcaicas, que encontra no mito a própria fonte de sua existência’”.
“Todavia, embora o Tempo litúrgico seja um tempo circular, o cristianismo, herdeiro fiel do judaísmo, aceita o Tempo linear da História: o Mundo foi criado uma única vez e terá um único fim; a Encarnação teve lugar uma única vez, no Tempo histórico, e haverá um único Juízo. Desde o início, o cristianismo sofreu influências múltiplas e contraditórias, sobretudo as do gnosticismo, do judaísmo e do ‘paganismo’. A reação da Igreja não foi uniforme. Os Padres desencadearam uma luta sem tréguas contra o acosmismo e o esoterismo da Gnose; conservaram, entretanto, os elementos gnósticos apresentados no Evangelho de João, nas Epístolas Paulinas e em certos textos primitivos. Mas, a despeito das perseguições, o gnosticismo jamais foi radicalmente extirpado, e alguns mitos gnósticos, mais ou menos camuflados, ressurgiram nas literaturas orais e escritas da Idade Média”.
“Quanto ao judaísmo, ele forneceu à Igreja um método alegórico de interpretar as Escrituras e, sobretudo, o modelo por excelência da ‘historicização’ das festas e dos símbolos da religião cósmica. A ‘judaização’ do cristianismo primitivo equivale à sua ‘historicização’, à decisão dos primeiros teólogos de unir a história da pregação de Jesus e da Igreja nascente à História Sagrada do povo de Israel. Mas o judaísmo havia ‘historicizado’ um certo número de festas sazonais e símbolos cósmicos, relacionando-os a eventos importantes da história de Israel (cf. a Festa dos Tabernáculos, a Páscoa, a festa das luzes de Hanucá, etc.). Os Padres da Igreja seguiram o mesmo caminho: eles ‘cristianizaram’ os símbolos, os ritos e os mitos asiânicos e mediterrâneos, relacionando-os a uma ‘história sacra’. Essa ‘história sacra’ ultrapassava, evidentemente, os limites do Antigo Testamento e agora englobava o Novo Testamento, a pregação dos Apóstolos e, mais tarde, a história dos santos. Um certo número de símbolos cósmicos - a Água, a Árvore e a Videira, a charrua e o machado, o navio, o carro, etc. - já haviam sido assimilados pelo judaísmo, e puderam ser facilmente integrados na doutrina e na prática da Igreja, recebendo um sentido sacramental ou eclesiológico”[1].



[1] ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Trad. Pola Civelli. São Paulo, Perspectiva. 1972. p. 143-148.

segunda-feira, 23 de março de 2020

OS CRISTÃOS EM UM CONTEXTO APOCALÍPTICO / OU, COMO SE VIRAR DENTRO DE CASA O DIA TODO


Sim, sim; eu também estou escrevendo de dentro da minha casa, de onde não pretendo botar a cara para fora pelos próximos dias, somente pra comprar comida, medicamentos e só.
Confesso que há anos perdi muito dessa vontade de ficar de bobeira na rua, ou mesmo na TV e internet. Se saio, tem que ter alguma finalidade: realizar tarefas, encontrar amigos, ou me distrair com alguma atividade sadia. Sair sem nenhuma finalidade, nem pensar! E como eu tenho dois idosos para cuidar aqui, mesmo esses momentos de distração rarearam, como não poderia ser diferente.
Ruim? Bom, não vou dizer que essa era a vida que eu sonhava. A realidade superou até mesmo os meus sonhos mais loucos, como está sendo para todos. Mas queria deixar registradas algumas impressões sobre a pandemia que paralisou o mundo, e talvez apontar algumas luzes no fim do túnel.

Dois livros que li podem nos ajudar a compreender como enfrentar essa provação do recolhimento forçado. O primeiro é um testemunho do padre Walter J. Ciszek (Cf.: https://www.quadrante.com.br/pelos-vales-escuros), um jesuíta que passou 23 anos preso em campos de confinamento na URSS. O outro, o do cardeal François X. N. Van Thuan (Cf.: https://www.cidadenova.org.br/livraria/produtos/30-testemunhas_da_esperança), que passou anos em uma solitária, também preso por um regime de inspiração marxista.
O que ambos possuíam em comum? Uma resiliência perante situações desconcertantes, privação completa e absoluta de liberdade. Sem banho, sem comida, sem receber visitas, constantemente ameaçados de fuzilamento. Só restava a eles aceitar a realidade.
Aqui é preciso uma breve explicação: para nós, cristãos, a aceitação da realidade é o começo da entrega completa a Vontade de Deus. Para nós, Deus não é um ser distante e frio, mas um Deus de misericórdia e bondade que só quer o nosso bem. No caso do Pe. Cisbek ele mesmo chega a dizer no livro que a parte mais difícil da privação para um cristão é saber que nada pode mais ser feito. Você não tem espaço de manobra para dizer: “fiz a minha parte e que agora Deus faça a sua”. Não! Não há nada a se fazer. Esse sacrifício da nossa vontade e inteligência (entendimento) é um processo muito doloroso, porém necessário, porque rompe as últimas amarras que nos impedem de aceitar a Vontade Dele. Nada de mal vem de Deus. A dor nos purifica e nos permite ver a Deus sem obstáculos.
Alguém que teve coragem de ler este texto até aqui pode me criticar dizendo: ok, mas... e aí? Vamos nos entregar ao pessimismo então?
Nada disso! A mensagem do Pe. Cisbek e do Cardeal Van Thuan são de otimismo. Otimismo em ver que, mesmo diante das maiores calamidades, Deus nos acompanha e de um grande mal pode tirar um grande bem. Basta que permitamos, que usemos bem da nossa liberdade, do nosso livre arbítrio para realizarmos o plano divino que Ele desenhou desde toda a eternidade. Podes crer que tu vais sair dessa quarentena forçada – que, admitamos, é bem mais suave que uma solitária numa prisão vietnamita! – mais purificado na sua alma, mais leve, mais atencioso aos seus parentes, amigos e colegas de trabalho. Verá que o valor de um sorriso no rosto de uma criança, em um idoso, entre um homem e uma mulher é inestimável, vale bem mais que um milhão de dólares.

Por fim, queria terminar minhas reflexões comentando de outro padre: José Emerson Barros Cabral (Cf.: https://www.youtube.com/user/peemersondf/videos). Ele celebra diariamente missa em sua capela particular. Por causa da pandemia? Não. Na verdade, ele já vivia em quarentena há tempos, devido a um transplante de rim realizados meses atrás. Sim, ele faz parte do tal “grupo de risco”, mas segue vivendo um dia após o outro, como aliás todos nós deveríamos fazer. “O pão nosso de cada dia nos daí hoje”, nos pediu Jesus que pedíssemos ao Pai Celeste. Ele não nos ensinou a pedir o pão de amanhã, ou da semana que vem, ou em estocar a “quentinha” como alguns egoisticamente fizeram com itens de higiene pessoal nas últimas semanas.
Viver um dia após o outro, fazer o que temos e podemos fazer como se tudo dependesse de nós, e rezar intensamente porque tudo depende Dele: eis a fórmula, penso eu, de como vamos superar essa que possivelmente será a maior crise deste começo de século XXI.

Despeço-me, agradeço a paciência que você teve em ler estas linhas meio improvisadas, e cuide-se!

Edison Minami.

domingo, 15 de março de 2020

ESSAS CRISES MUNDIAIS SÃO CRISES DE SANTOS (São Josemaría Escrivá de Balaguer, Fundador do Opus Dei)


Enquanto escrevo aqui de casa vejo que o mundo mais uma vez convulsiona, desta vez devido a pandemia do COVID-19, apelidada pela imprensa e mídias sociais de Corona-vírus.
Sim, eu sei e todos que leram o post até aqui já estão fartos e tomando todos as devidas providências, logo, não há necessidade de me estender sobre os aspectos clínicos e médicos do assunto.
Meu enfoque como historiador da Igreja é outro: a sensação de temor e tremor que assola a todos há tempos. Em outras palavras: a certeza de que nosso mundo, construído sobre os ganhos da modernidade dos últimos séculos, vai desabar num instante como um castelo de cartas. (Os corretores da bolsa de valores que o digam!).
Ao ver como o mundo e cada pessoa se assombra diante da possibilidade do seu próprio fim - certeza essa que é a única que temos! – veem a mente A cidade de Deus de Santo Agostinho de Hipona (354-430).
Para Agostinho um acontecimento mau é enfrentado de modos diferentes por cristãos e não cristãos. O ímpio sofre para se arrepender dos seus pecados, já os justos sofrem para que estejam sempre despertos e preparados para amar e servir ao seu Deus, ou seja, para justificar a sua fé. Pecadores e santos enfrentam diferentemente os desafios da vida: os primeiros com revolta ou resignação, já os segundos com alegria, pois entendem que a dor os une ao seu Deus feito homem e morto na Cruz:

“(...) a paciência de Deus convida os maus à penitência, como os flagelos adestram os bons na paciência. E como a misericórdia de Deus abraça os bons para auxiliá-los, sua severidade apodera-se dos maus para castigá-los”. (...).
“Assim, malgrado partilharem das mesmas angústias, bons e maus não se misturam, por estarem confundidos nas provações. A semelhança dos sofrimentos não elimina a diferença entre os sofredores e a identidade dos tormentos não estabelece identidade alguma do vício e da virtude”[1].

Aqui vale a regra da parábola onde o sol nasce para bons ou maus, onde o semeador sai para semear a semente tanto no solo bom quanto no ruim. Deus não permite a maldade dos homens porque não pode fazer nada – argumento de ateus militantes como Richard Dawkins e Paolo D´Arcais contra a crença em Deus – mas sim porque ele preza a nossa liberdade. As guerras mundiais ocorrem apesar da desaprovação divina, e não por causa de uma “incompetência de Deus” ou insensibilidade divina.
Quanto as calamidades que assolam o mundo como uma epidemia de peste, por exemplo, elas lembram que o mundo não está acabado em si. Como criatura de Deus, o mundo segue progredindo, se transformando, se plasmando, buscando algo que apenas no final dos tempos ocorrerá: seu ápice. E essa busca de equilíbrio não transcorre sem acidentes: terremotos, maremotos, secas, enchentes, somadas a guerras, convulsões sociais, conflitos de todos os tipos. A natureza se transforma, mas a ação do homem também transforma e interfere. Outro pensador de destaque também desenvolveu essas mesmas ideias:

“(...) Deus está lá, sustentando todos os seres, Ele que é o Senhor da história; porque Ele não apenas sabe disso, mas tudo o que ocorre acontece porque Ele o quer e permite. Esse Deus nos ensinou a invocá-lo como Pai; este é o primeiro fundamento de nossa segurança e nossa confiança na história: fé em sua providência e em seu amor. Sabemos que sua mão todo-poderosa e misericordiosa sustenta, invisível porém presente, o desenvolvimento do tempo desde o primeiro dia da criação”.
"Mesmo quando o mal irrompe e parece tirar tudo, quando catástrofes cósmicas nos arrastam como uma pena, sabemos que não podemos nos desesperar: porque Deus amou tanto o mundo, que ele lhe deu seu Filho Unigênito, para que todo o que creia nele não pereça (Jo 3, 16)”[2].

Por fim, e encerro aqui minhas digressões, respondo dizendo como S. Josemaria Escrivá, que as “crises mundiais são crises de santos”, ou seja: depende de nós cristãos darmos o nosso testemunho de coragem, misericórdia e caridade perante um mundo que ao menor sinal de instabilidade segue o “mal humor dos mercados financeiros”, sucedâneos modernos da “PAX ROMANA” que, assim como sua similar do sécs. IV e V, quando acabou seus contemporâneos não conseguiam ver nada além de um túnel escuro e o fim dos tempos.
Se a percepção de que o mundo vai mal contamina a todos, fiéis e infiéis, isso somente prova que a fé da maioria se esfriou, daí a “crise na santidade”. Como cristãos temos que provar que, assim como S. Agostinho na sua Cidade de Deus, o fim do mundo decrépito e desabando de podridão moral e espiritual – o nosso mundo, nunca é demais lembrar! - é apenas mais uma etapa em uma história maior, a da ação de Deus no tempo e no espaço, a que chamamos de História da Igreja Católica, e que somente vai se encerrar na parusia, a segunda vinda de Cristo à terra.

Assim seja!
Tenham todos uma ótima semana!



[1] SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A cidade de Deus: contra os pagãos. Livro I, cap. 8. Petrópolis: Vozes, 2016, p. 47-49.
[2] MARROU, Henri-Irenée. Teologia de la historia. Madri: RIALP, 1968, p. 52-53.

terça-feira, 10 de março de 2020

PRECISO LER E DEPOIS PRECISO ESCREVER: OU, COMO EU VEJO MEU APOSTOLADO

Amigos, nos dias que correm entende-se que tudo deve ser publicado nas redes sociais em velocidade supersônica: blogs, Instagram, Twitter, textos no Facebook, posts no WhatsApp... Tudo deve ser resolvido e explicado em poucas linhas, poucos parágrafos. Não é assim que devo agir! Infelizmente meus vídeos no Youtube estão parados até segunda ordem, pois decidi que são através de textos e notas de formato mais acadêmico – pra não dizer mais quadradão! – que devo agir, na medida do possível. Sim, tudo mais lento, mais pausado, mais difícil de entender em último caso! Mas precisa ser assim, pois preciso de tempo pra pensar, digerir e refletir. Nem jornais e TV assisto direito, pois preciso me concentrar nos meus raros momentos de leitura, reflexão e escrita para poder organizar ideias e assim passar alguma coisa que preste pelas redes sociais. Sim, o que mais abomino no momento é o que me permite manter contato com vocês! E aqui não posso choramingar, mas aceitar! No momento estou tentando produzir algo que tenha algum valor. Peço as orações de todos para que dê certo! Boa noite a todos! Edison Minami

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

SURTO NOTURNO (ou, em busca da leitura perdida!)




Christopher Dawson era um autor até uns anos atrás completamente desconhecido para mim. Só havia lido um livrinho que ele havia escrito no contexto da 2ª Guerra Mundial intitulado O julgamento das nações[1]. 
Foi por causa da leitura desse livro que eu destaquei Christopher Dawson como um dos autores essenciais para meu projeto particular de compreensão da teologia da história a ponto de comprar vários livros dele na sede da É Realizações que infelizmente tenho lido em uma velocidade muito menor do que eu gostaria e deveria.
Essa lentidão sinto-a mais gravemente porque desde os meus tempos de graduação autores como Christopher Dawson, Henri Irenée-Marrou, e Daniel Rops eram para mim ilustres desconhecidos. Chesterton era perigoso porque podia “nos influenciar!” (palavras do meu professor de teoria da história. Hoje faço tudo ao contrário do que ele me recomendou). Régine Pernoud era leitura pra quem tinha preguiça de procurar Jacques Le Goff e Georges Duby. Os manuais de História da Filosofia de Johannes Hirschberger não saiam da biblioteca há décadas e eu vivia retirando esses livros. Os bibliotecários reclamavam porque cada vez que eu retirava um livro sem catalogação eletrônica eles levavam um tempo pra colocar no sistema USP. E pensar que hoje cada volume dessa coleção de 4 livros pode chegar a custar 1000 reais nos sebos especializados! 
Sim, caros amigos: ler autores ditos conservadores e/ou de bibliografia tradicional não era tarefa das mais fáceis na USP dos anos noventa do século XX. 
Aos 44 anos a gente começa a querer recuperar o tempo perdido, pelos menos do ponto de vista intelectual! Menos pensadores da moda e mais livros velhos, empoeirados, grandes sínteses no lugar desse papinho da “relatividade e pulverização do saber”. Resumindo: “cansei de ser moderno, agora quero ser eterno!”.
Aliás, algumas palavras sobre a É Realizações: a edição dos dois volumes A formação da cristandade e A divisão da cristandade são excelentes. Apenas uma editora preocupada com a qualidade acadêmica das suas publicações moveria tantos intelectuais e pesquisadores para a edição dos livros de Christopher Dawson. E eles parecem pretender publicar todos os livros de Christopher Dawson; que maravilha!

"Ler, ler, ler, ler e ler, sem se cansar!". (Frase que meu saudoso orientador Augustin Wernet dizia para eu não desanimar ao tentar ler os 200 livros que ele dizia serem o mínimo que um estudioso deveria ler sobre seu assunto de pesquisa). 



[1] Reeditado pela É Realizações em 2018.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Dois Pequenos Passos na Areia Molhada

Dois Pequenos Passos na Areia Molhada

Há muitos anos um padre muito amigo meu me alertou que quando a gente só lê um tipo de livro corremos o risco de ficarmos bitolados e chatos. Esse é o risco que caras como eu correm quando só leem livros de história e/ou de religião. Nesses tempos em que boa parte do meu escasso tempo livre é dedicado a dormir, ler, escrever e a (retomar) gravar vídeos, esse risco de ficar monotemático é real. Sendo assim, entendo como um acaso feliz minha afilhada ter me emprestado Dois pequenos passos na areia molhada. Eu já havia lido livros sobre relatos pessoais de pessoas que atravessavam momentos ruins na vida, mas admito que este aqui supera os demais nos quesitos dramaticidade e identificação pessoal.

Julliand é a mãe da pequena Thais e de Gaspard. Bem casada com um marido jovem e amoroso, Loic, com um padrão de vida bom, parecia que nada poderia abalar a felicidade dessa família. Mas um dia de lazer na praia trouxe uma preocupação: a pequena caminha entortando os pés. Após exaustivos exames e consultas clínicas o diagnóstico de uma rara e fatal doença degenerativa.
O livro a partir daí descreve a longa e cansativa saga da família em busca de um tratamento para a menina e sua irmã - que nasce durante o tratamento e posteriormente é diagnosticada com a mesma doença.
O mérito de Julliand é nos colocar dentro do drama familiar em que repentinamente eles estão imersos. As descrições dos procedimentos médicos e cirúrgicos, o relacionamento com cuidadores, médicos, enfermeiros, parentes e amigos é realista ao extremo. Posso mensurar isso por mim mesmo, pois quando minha mãe fraturou a coluna dois anos atrás os mesmos dilemas, cansaços, raivas, medos e desalentos ameaçaram me derrubar. Aliás, Julliand e sua família souberam enfrentar o que os psiquiatras contemporâneos chamam de "Síndrome de Burnout", esse mal do homem moderno esmagado pela sua ânsia em mostrar produtividade além de suas capacidades humanas e psíquicas.
No caso de Julliand, após diversas "quedas e quebras" psíquicas, ela mesma admite que decide viver um dia de cada vez e não querer antecipar preocupações e problemas, ou seja, o ditado "não deixe para amanhã o que pode fazer hoje" somente vale para quem não tem que cuidar de parentes doentes. Para nós que extraímos forças de onde não tínhamos para acudir uma filha - ou a mãe idosa, como no meu caso! - vale uma nova frase: "deixe para amanhã o que NÃO PRECISA SER FEITO HOJE!". Acredite: isso ajudou Julliand, e a mim!
Outro ponto precioso do livro é a união familiar. Julliand é uma mulher forte, mas quando tudo parecia desabar o ombro sereno e forte de seu marido era um porto seguro onde ela repousava e buscava novas energias. Loic quase não fala no livro, mas sua presença é fundamental como o homem da casa, a rocha onde todos sabem que podem contar nas horas ruins. Aqui Julliand deixa um sutil recado a feministas e "homens feministos" de todos os quadrantes ao mostrar que homem de verdade é aquele que não abandona a companheira e a família nos momentos ruins, muito menos se impõe exibindo uma sexualidade vulgar, que na realidade não tem nada a ver.
Por fim, outro lembrete do livro é a questão da morte. Outro amigo meu certa vez me disse que a maior dor de um pai é enterrar o próprio filho, e Julliand nos lembra disso. A cada dia que passa o dia da morte e despedida da pequena Thais se aproximava e ela como mãe tentou se preparar para esse dia da melhor forma possível, mas como mãe não há forma de tornar essa vigília menos dolorosa. A aceitação da morte da filha por Julliand não é o conformismo pessimista dos existencialistas ateus franceses (Sartre, Camus) para quem a vida era uma náusea, uma inutilidade, "um comer e copular incessante" (A peste de Albert Camus) que termina no pessimismo. Para Julliand a morte tem um significado em nos sabermos criaturas espirituais citadas por um Deus que é o Supremo Bem.
Aliás, essas dimensão espiritual fica oculta no livro, mas está sutilmente presente. Julliand e o marido possuíam um "diretor espiritual", um padre amigo, mas ele é apenas citado rapidamente. Aqui creio que a autora optou por realizar uma omissão intencional e centrar toda a narrativa no drama enfrentado entre mãe e filhas doentes.
De qualquer modo, trata-se de um livro muito belo que merece ser lido por todos, absolutamente todos, pois a vida é o maior dom que recebemos de graça!

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

AINDA SOBRE EVANGELIZAÇÃO/O CASO PE. DOMINGOS CHOHACHI NAKAMURA


Dias atrás contei a vocês sobre a história da catequista/irmã terciária agostiniana/catequista Santa Madalena de Nagasaki.
Completando as reflexões sobre evangelização dos povos, queria falar um pouco sobre o pe. Domingo Chohachi Nakamura (+1940).
Em fins do séc. XIX o Japão havia se aberto ao comércio com os povos ocidentais, e, como já havia contato no post anterior (Cf.: https://teologiadahistoriabrasil.blogspot.com/2019/10/santa-madalena-de-nagasaki-as-licoes.html), isso também acarretou a entrada de missionários cristãos no arquipélago, evangelização essa que havia sido interrompida no séc. XVII.
Nesse contexto o jovem Nakamura se converte, é batizado e se ordena padre, atuando junto aos "cristãos ocultos" nas Ilhas Goto, um arquipélago isolado onde, após as perseguições do séc. XVII, muitos cristãos se esconderam. E lá o Pe. Nakamura seguiu evangelizando com muito empenho e esforço. 

Aos 58 anos de idade, em uma altura da vida onde muitos com razão já pensam na aposentadoria, o bispo local procurava voluntários para iniciar o trabalho de atendimento espiritual aos imigrantes japoneses que desde 1908 emigravam em levas ao Brasil, mais especificamente ao interior do Estado de São Paulo, mas também norte do Paraná, sul de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. 
Sem pestanejar, Pe. Nakamura seguiu para o Brasil. 
No interior paulista da década de 1920 as distâncias eram imensas: entre uma fazenda e outra dezenas de quilômetros que Pe. Nakamura percorreu a pé, ou de vez em quando, o lombo de uma mula e carregando duas pesadas valises. Uma delas com seus paramentos, hóstias, breviário; e a outra com o altar portátil, os cálices, sanguíneos e demais apetrechos para celebrar missa. Eram os tempos da missa em latim de rito tridentino, logo, a bagagem do Pe. Nakamura era bem pesada!
E lá ia ele. Onde havia japoneses ele ia atrás: pregando, batizando, casando e enterrando, quase sempre em japonês. E não apenas os “cristãos ocultos” que haviam emigrado ao Brasil, mas qualquer um com boa disposição no coração, fossem budistas[1], xintoístas[2] ou simples caboclos das redondezas que viviam sem padre: ele os atendia e os ouvia, quando, onde e como fosse. Antes de ser japonês e padre ele era um discípulo de Jesus Cristo e tinha plena consciência de que haviam muitas ovelhas que não eram do seu aprisco – os imigrantes – mas ele atendia qualquer um.
De um paroquiano recém convertido ele certa vez ouviu: “ser cristão é viver o verdadeiro espírito de Yamato!”. Yamato era o antigo nome do Japão. Com o tempo passou a denominar uma província densamente arborizada, onde se dizia, as almas iam morar após a morte. Yamato, de um modo mais genérico, pode também significar tudo o que se refere ao “ser japonês”: sua língua, cultura, costumes. Daí a fala do recém-batizado poder ser entendida como uma forma de “inculturação” da cultura japonesa ao evangelho. Ser japonês e cristão é ser plenamente nipônico. Os conceitos de fidelidade ao senhor ou ao superior, transferidas ao Deus Supremo, a obediência aos mandamentos, tudo isso foi transferido ao cristianismo dos japoneses no Brasil.
E assim ele seguiu trabalhando no Brasil até chegar aos 85 anos, quando a idade e o esforço pesaram. Emagrecido e acamado, perguntou pateticamente: “onde foram parar as carnes das minhas pernas?”. Morreu em odor de santidade.
Seus antigos seguidores, anos depois e em sua homenagem, fundaram a PANIB, Pastoral Nipo-Brasileira, que segue suas atividades até os dias atuais.
Quanto a figura do próprio pe. Nakamura, hoje há todo um esforço em abrir seu processo de beatificação. Rezemos para que este verdadeiro missionário seja um dia elevado aos altares! Que assim seja! 

Que Deus todo poderoso suscite vocações missionárias como as do Pe. Nakamura, na Amazônia, no Brasil e pelo mundo todo.
Amém!!!
(Abaixo segue a oração pedindo a intercessão do Pe. Nakamura).




[1] Sidarta Gautama, ou simplesmente Buda, viveu no séc. V antes de Cristo. Fundador do budismo, muito numeroso em fiéis na Ásia.
[2] O Xintoísmo poderia ser definido como culto aos antepassados. No Japão ganhou uma roupagem religiosa, tornando-se a segunda maior religião do Japão, atrás apenas do budismo.

domingo, 20 de outubro de 2019

SANTA MADALENA DE NAGASAKI: as lições que devemos tirar – e seguir!


Estava eu na paróquia de NSA da Saúde aqui do lado de onde moro quando ouvi frei Benjamim, o celebrante da missa das 10:00hs da manhã, chamando a atenção de todos para uma pequena imagem que se encontrava perto do altar. Como eu tenho o costume de me sentar longe não percebi muito bem os detalhes, mas logo o frei nos avisou que se tratava de santa Madalena de Nagasaki (1611-1634), padroeira da Fraternidade Secular Agostiniana Recoleta e mártir japonesa. Mas, quem foi essa santa?
Para responder satisfatoriamente a essa pergunta, remeto o leitor a seguinte página na internet: http://arquisp.org.br/liturgia/santo-do-dia/santa-madalena-de-nagasaki , onde a vida dela aparece com mais detalhes. Aqui pretendo me fixar em apenas alguns aspectos de sua vida que me vieram a mente e podem nos ajudar a entender e a agir neste momento crucial da história.


Em começos do séc. XVI um navio português jogado por uma tempestade atracou no Japão. Com a consequente abertura ao comércio vieram os missionários. Aqui o pioneirismo coube a São Francisco Xavier (1506-1552), que plantou as sementes da evangelização.
Mas a situação política japonesa logo iria atrapalhar os planos dos evangelizadores: na época o Japão buscava superar o século anterior de Guerras Civis (sécs. XV-XVI) e uma série de governantes do período unificou o país: Oda Nobunaga (1534-1582), Toyotomi Hideyoshi (1537-1598), e o primeiro Xogum, Tokugawa Ieyasu (1543-1616).
Esses homens eram todos samurais e não viam com bons olhos a evangelização dos cristãos. A tolerância relativa, que ainda existia até fins do séc. XVI, logo cederia lugar a perseguição mais ou menos aberta com o cristianismo sendo visto como “religião dos bárbaros do ocidente”. A proibição de entrada de missionários e a perseguição aos cristãos (kirishitan) provocou a formação de um cristianismo essencialmente laical no arquipélago, em especial na região de Nagasaki.


Aqui se contextualiza a vida de Santa Madalena de Nagasaki. Catequista, apoiava a ação clandestina de padres missionários e levava conforto material e espiritual aos cristãos que se abrigavam nas montanhas ao redor.
Os martírios de cristãos eram executados com requintes de crueldade: enfiar espetos debaixo das unhas e obrigar os supliciados a escavar a terra; mergulhar o prisioneiro de cabeça pra baixo em fossas sépticas (fossas sanitárias); cozinhar vivos os cristãos em termas naturais. O saldo final: morreram tantos mártires no Japão quanto nos períodos de perseguição no Império Romano.
Santa Madalena de Nagasaki foi martirizada no ano de 1634 – ela contava com apenas 23 anos de idade, mas seu exemplo e o de outros inspirou os cristãos a resistirem. De boca em boca, no escondido das cabanas se dizia que um dia os padres voltariam, e para saber se não estariam diante de impostores eles deveriam procurar três sinais:
a)      O padre não deveria ter esposa;
b)      O padre deveria ser devoto de Maria Santíssima, Mãe do Céu;
c)      O padre deveria ser fiel ao Papa de Roma.
Nascia uma Igreja cristã leiga clandestina: os Kakure Kirishitan 隠れキリシタン (cristão escondido). Cedo as autoridades japonesas se deram conta que não seria fácil dobrar os cristãos japoneses e além da tortura, exílio e execução procurou-se, através de cerimônias blasfemas fazer os cristãos renegarem sua fé: o fumiê, que consistia em obrigar o acusado de cristianismo a pisar ou despejar seus excrementos sobre uma imagem de Jesus e/ou Maria Santíssima. Quem se negasse a fazê-lo era torturado e morto[1]. O cristianismo japonês só voltaria a “ter padre” em fins do séc. XIX com a reabertura do Japão ao ocidente e o final do xogunato Tokugawa.
Mas isso não significou o fim das dores: mesmo sob o governo do Imperador Meiji – pró-ocidente e aberto a modernização do país - houve novas perseguições. Por fim a explosão e destruição da catedral de Nagasaki pela bomba atômica em 09 de agosto de 1945 forçou a secular comunidade de Nagasaki a mais uma vez se reerguer das cinzas.


Hoje o cristianismo representa menos de 10% da população japonesa, sendo que apenas 3% se reconhecem católicos. Ou seja, o Japão moderno ainda é terra de missão.
Mas... e o que isso tem a ver conosco aqui no ocidente?
Ora, simplesmente tudo!
Quando se discute a maciça falta de padres na Amazônia, o exemplo dos cristãos ocultos que mantiveram sua fé por 250 anos seguidos nos ensina que capacitar os leigos para serem transmissores da fé é um meio útil, prático e seguro. E a vida de Santa Madalena de Nagasaki nos ensina que o melhor pregador num contexto de total ausência de padres é a santidade de vida, o amor à Igreja e aos sacramentos (ou mesmo a falta deles).
Esta, meus amigos, é a hora dos leigos. Não somos longa manus (mãos longas) dos sacerdotes, apêndices ou fiéis de segunda categoria, mas membros ativos da Igreja de Cristo, com o mesmo múnus de pregar, santificar e ensinar. Essa doutrina, ratificada pelo Concílio Vaticano II como “sacerdócio” dos fiéis leigos é a saída para que, de uma igreja esmagadoramente laical, surjam enfim vocações religiosas para pular o “muro sacramental” que a falta de padres provoca[2] nas comunidades.

Pensemos em tudo isso!!!!![3]
Boa noite e tenham todos uma excelente semana!!!!!!!
Santa Madalena de Nagasaki, rogai por nós, pelo Papa Francisco, pelos padres-sinodais e por toda a Igreja de Cristo!!!!!!!!

Edison Minami.



[1] Essa cena, chocante para um católico, foi magistralmente descrita em uma das aventuras do Lobo Solitário, mangá famoso dos anos 1970, já publicada no Brasil pela editora Panini Comics.
[2] A expressão “muro sacramental” era usada por São Josemaría Escrivá para explicar que, mesmo na Prelazia Pessoal do Opus Dei onde se cultiva a santificação dos fiéis leigos no meio do mundo através de suas atividades cotidianas, a recepção dos sacramentos depende da existência de padres e bispos.
[3] Para saber mais, recomendo: John Whitney-Hall. História universal, vol. 20: o Império Japonês. Ed. Siglo Veinteuno, México-DF, 1973; José Miguel Cejas. Os crisântemos em flor. Quadrante, 2019; Paul Glinn. Um hino a Nagasaki. Loyola, 1992.

sábado, 12 de outubro de 2019

Faleceu esta madrugada o prof. Ivanaldo Santos devido a um acidente automobilístico.
Filósofo e intelectual de primeira linha, possuía uma vasta produção acadêmica. Dentre suas muitas obras destaco essa que aparece anexada aqui, sobre a Teologia da Libertação e seus desdobramentos.
Cristão católico, soube harmonizar sua fé com o saber acadêmico. Desde que o conhecemos através do Instituto Jacques Maritain sempre nos incentivou a perseverar na produção e reflexão intelectual, e eu sempre respondia que, devido aos muitos afazeres pessoais e familiares não podia dedicar o tempo e o esforço necessários. Que Deus o acolha em sua glória, e que Nossa Senhora Aparecida o acolha sob seu manto protetor!!!!!!!

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Impressões sobre o Sínodo

Desde o dia 06/10/2019 está se realizando em Roma o Sínodo Pan-Amazônico. Se você é cristão e acompanha minimamente as notícias, creio que já está saturado de notícias e análises do sínodo e possivelmente não quer ler mais uma. Acredite: eu te entendo!
Queria apenas deixar aqui registrados alguns fragmentos de pensamentos que me vieram à cabeça desde o domingo, e como é lógico refletem a minha opinião pessoal. Se a leitura não o agradar, peço encarecidamente que não termine excomungando o papa, bispos e quem não pensa como você, ok?

PAPA FRANCISCO E O SÍNODO: HERESIA, HERESIA...?
Essas palavras vieram á público desde que o sínodo foi anunciado em 2018, e mesmo antes. Tenho conversado com alguns amigos cristãos e o sentimento é o mesmo: estamos chegando no fundo do poço. A parusia (a segunda vinda de Jesus Cristo) só pode estar perto. Por todos os lados vemos defecções, traições á doutrina e a palavra de Jesus Cristo. Parece até que seu aviso: "Quando o Filho do Homem vier encontrará fé sobre a terra?" está se realizando na sua plena crueza.
Aqui penso que devo fazer alguns esclarecimentos.
Não sou ingênuo de pensar que a coisa não está ruim. Ela está sim. Os debates no sínodo demonstram isso. Fica no ar uma leitura liberal - em certos momentos excessivamente liberal! - da doutrina cristã.
Sobre o Sínodo, eu lia esta tarde um artigo no portal de notícias Aceprensa: (https://www.aceprensa.com/articles/amazonia-evangelizar-no-discutir-el-celibato/) onde o entrevistado, um dos "padres sinodais" (nome dado aos participantes do sínodo) lembrava que mais que flexibilizar a figura do padre com ordenações de padres casados e mulheres pregando, devíamos repensar como um todo a evangelização dos povos amazônicos, que afinal de contas ainda são povos de missão. O entrevistado vai mais além e diz:
"Pe. Lasarte questionou a razão subjacente que geralmente é dada para ordenar padres não celibatários: suprir a escassez de ministros. Na sua opinião, "a abordagem do problema nesses termos sofre um enorme clericalismo". É concebida "uma Igreja com pouca ou nenhuma proeminência e senso de pertencer aos leigos". Por isso, ele disse: "Tenho a impressão de que você deseja clericalizar os leigos", quando a prioridade é alcançar "uma Igreja de protagonistas, discípulos e missionários batizados". (Grifo meu).
"Por outro lado, "uma visão" funcional "do ministério que não revitaliza toda a comunidade cristã como protagonista da evangelização, mesmo que tenha ordenado pessoas casadas, não resolverá o problema: o compromisso batismal cristão permanecerá o mesmo".
(Amazonia: evangelizar, no discutir el celibato", Portal Aceprensa, 02/10/2019).
A leitura desta entrevista me ajudou muito a entender um dos vários problemas do Sínodo: a metodologia, ou melhor dizendo: como e porque evangelizar?

INCULTURAÇÃO, INTERCULTURALIDADE, ECUMENISMO E DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO... MAIS HERESIAS????
Aqui entramos mais a fundo em uma discussão que certamente escapa ao entendimento da maioria dos católicos brasileiros: as estratégias de evangelização que capacitam os missionários que atuam na Amazônia. Nos anos 2002-2005 eu havia estudado a fundo a temática da Inculturação do Evangelho, termo que vem aparecendo frequentemente nos debates sinodais.
Resumindo muito rapidamente, poderíamos dizer inculturação é o esforço em adaptar a mensagem cristã às diferentes culturas, à luz dos conhecimentos adquiridos das ciências humanas, em especial a sociologia e a antropologia. A Inculturação deveria alertar os missionários a se equipar para compreender melhor as culturas, e não violentá-las nem destruí-las, em contraponto às missões realizadas nos sécs. XVI-XVII nas Américas e a dos sécs. XIX-XX na Ásia e África.
Admito que esses esforços intelectuais em produzir uma missão cristã renovada por parte de bispos, cardeais, teólogos e especialistas da época não respondiam a pergunta essencial: se não devemos tocar nas culturas não cristãs, que papel restou a missão e ao missionário? E, se não estamos mais convictos de possuir a Verdade do Evangelho, porque então o diálogo e a preocupação de se superar as diferenças? Não seria tudo a "mesma coisa"?
Não à toa, nos anos imediatamente posteriores ao Concílio Vaticano II (1962-1965) a crise que abalou o catolicismo também atingiu duramente as ordens religiosas. Congregações cujos carismas eram a conversão de judeus, muçulmanos, aborígenes e ateus repentinamente se viram alvos de acusações de aculturar (trocar uma cultura inferior por outra superior) povos e nações. Muitas a partir de então entraram em crise. Outras, como os Frades Franciscanos da Reconciliação (cujo carisma era a conversão dos protestantes) mudaram radicalmente e adotaram o ecumenismo como norma de ação.
Aqui penso que a teologia pluralista planetária libertadora, ao equiparar todas as religiões entre si, prestou um desserviço á própria religião, pois a desarmou do seu ser: o de revelar o divino ao humano. E essa teologia pluralista planetária libertadora, ensinada em diversos cursos de ciências da religião, é a teologia que norteia a ação de vários bispos sinodais amazônicos.
Quando Youtubers como Bernardo Küster e Olavo de Carvalho acusam os bispos sinodais de esquerdismo, heresia e nova-ordem mundismo, deveriam acrescentar que existe também esse componente: as ciências humanas há tempos se colocaram acima da teologia, chegando a definir o que é certo ou errado, o que é merecedor do status permanente - dogmático num sentido geral - e não deveria ser tocado nem discutido. O "ser teológico" perdeu seu espaço por direito.
Por outro lado, o aspecto provisório e mutável dos conhecimentos nas ciências humanas foi deixado de lado e formou-se um novo dogma. Se a missiologia e a catequese devem, a partir de agora, seguir de perto as conclusões dos cientistas sociais, o aspecto carismático e educativo da missão fica engessado perante as conclusões prévias estabelecidas pela metodologia e filosofia previamente adotadas. Se sair do "script", não serve! Enquanto em nome da metodologia missionária os debates sobre ordenação de mulheres, padres casados, missas indígenas e outros gastam o precioso tempo dos bispos sinodais, nas matas e florestas da Amazônia legal e real cristãos leigos seguem desatendidos pelos representantes docentes de sua Igreja!
A inculturação do evangelho, na realidade, se processa de maneira muito mais lenta e por "tentativa e erro". Joseph Lortz na sua obra monumental "História de la Iglesia" nos alertou disso no volume I de sua obra. A evangelização dos germânicos no norte da Europa, segundo Lortz, um processo que levou séculos e consumiu gerações de missionários.
Lortz nos alerta que a inculturação do evangelho em uma cultura não pode ser esboçada nos gabinetes dos estudiosos, mas sim "no campo": na ação missionária propriamente dita, ao se pregar a fé verdadeira aos catecúmenos.

PARA FINS DE CONCLUSÃO
Haveria mais coisas a se dizer, mas como o sínodo está em pleno andamento penso melhor parar por aqui e aguardarmos os andamentos dos trabalhos. Mas já arrisco dizer que o Sínodo da Amazônia pode representar um divisor de águas entre uma eclesiologia calcada na "opção preferencial pelos pobres", modelo adotado a partir dos anos sessenta do séc. XX e cujo expoente maior foi a Teologia da Libertação de inspiração marxista; e uma eclesiologia nova, calcada na Tradição da Igreja e renovada pelos desafios deste séc. XXI que mal começou.
Quem viver, verá!